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Apresentação da pesquisa "Ser criança e adolescente no Rio de Janeiro"
“Existiam muitos dados do IBGE, mas feitos com adultos, não com adolescentes. Os pesquisadores sempre eram adultos e os entrevistados também; nunca era a mistura dos adolescentes com os adolescentes. Então foi bom fazer a pesquisa porque passou a ter um toque a mais sobre várias coisas”. Essa é a explicação de Mayara Tavares, 16 anos, sobre a importância da pesquisa “Ser Criança e Adolescente no Rio de Janeiro”, lançada no dia 17 de dezembro, no Rio de Janeiro. O evento reuniu cerca de 400 pessoas.
No lançamento da pesquisa, Mayara (pesquisadora moradora da comunidade de Urucânia, Santa Cruz) dividiu com Gláucia Nascimento (comunidade das Casinhas, Complexo do Alemão), Priscila Cristina Pires (Morro do Adeus, Complexo do Alemão), Luane Cerqueira (Barro Vermelho, Santa Cruz) e Platini de Souza (Chapéu Mangueira, Leme) a apresentação e o debate dos resultados da pesquisa que ouviu 887 adolescentes.
Coordenada pelo CEDAPS e Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência (Unicef), a pesquisa teve o objetivo de “entender melhor como as crianças e adolescentes vivem e percebem a cidade e a comunidade em que moram” e foi realizada em três áreas: Complexo do Alemão e entorno, Santa Cruz e Copacabana/Leme. Para Mayara, essa percepção sobre a cidade e sobre a adolescência pode ser traduzida não só nos resultados da pesquisa, mas também na forma como os adolescentes a elaboraram. “Perguntamos se os adolescentes gostavam do local onde moram, se eram felizes, o que gostariam de mudar na escola. Acho que esse tipo de pergunta os adultos não fariam”, disse.
No evento, Luciana Phebo, coordenadora do Escritório do Unicef para o Rio de Janeiro, ressaltou que a pesquisa teve como aspecto mais importante a valorização das crianças e dos adolescentes, construindo um espaço para eles serem ouvidos. Luciana destacou ainda um dos principais problemas apontados pelos adolescentes pesquisadores e pesquisados: a negação do direito de ir e vir pela cidade. “A cidade deve ser plural, mas única, para qualquer um poder circular em qualquer lugar”, disse.
A pesquisa revelou que o meio de transporte mais utilizado pelos adolescentes nas áreas pesquisadas é o ônibus. Em Santa Cruz, as kombis, vans e bicicletas também são bastante utilizados; em Copacabana, os ônibus e, no Alemão, os moto-táxis. Muitos também andam a pé. Mas a circulação pela cidade enfrenta grandes desafios. Os adolescentes de Santa Cruz, os que apontaram mais problemas com o transporte, falaram sobre situações em que motoristas de ônibus não param nos pontos e não respeitam o direito à gratuidade. O tema “transporte” gerou duas importantes recomendações por parte dos adolescentes participantes da pesquisa: que se possibilite transporte escolar gratuito dentro das comunidades e se estenda o passe livre para além do horário escolar para o acesso a bibliotecas, centros culturais e espaço de lazer, fazendo parte do processo de educação continuidade.
As dificuldades sobre transporte podem revelar ainda um outro problema enfrentado por essas crianças e adolescentes: o preconceito pela cor e pelo local de moradia. A maioria dos entrevistados na pesquisa foi constituída por crianças e adolescentes negros. No Complexo do Alemão, os entrevistados negros/pardos foram 74,7%; em Santa Cruz, 79,1%; e, em Copacabana e no Leme, 56,3%.
“Acho que a pesquisa tem que deixar claro que quem é mais prejudicado com a falta de segurança no Rio de Janeiro são os jovens da favela. São eles que não podem circular pela cidade, nem mesmo passar pra favela do lado”, disse a apresentadora Regina Casé, que mediou o debate.
Durante as discussões, os participantes do evento reconheceram a seriedade e o jeito com que os jovens conduziram a pesquisa e apresentação, e ouviram perguntas e reivindicações: “Gostaria de falar para as autoridades aqui presentes que deveria haver mais espaço para participação dos jovens nas políticas. Só nós sabemos de nossa realidade, o que precisamos. Temos uma capacidade muito grande de pensar, de criar, de fazer dentro da comunidade”, disse a jovem Janice Delfim, 25 anos, da organização comunitária PROA, do Morro dos Prazeres (Santa Teresa, Rio de Janeiro).
Perguntada sobre o que espera que as autoridades façam com a pesquisa, Mayara respondeu: “Espero que mudem todos os índices ruins (...). Com a pesquisa, é uma esperança maior que melhore.”
A pesquisa
A pesquisa “Ser Criança e Adolescente no Rio de Janeiro - A vida na cidade vista por adolescentes de comunidades populares do Complexo do Alemão, Santa Cruz e Copacabana/Leme” é composta por três CD-ROM com informações sobre cada uma das áreas pesquisadas: Santa Cruz; Copacabana e Leme; Complexo do Alemão e entorno. De caráter exploratório e quali-quantitativo, os CD-ROM dão destaque à fala e às percepções dos adolescentes, mas reúnem também dados de fontes oficiais, mapas e fotografias de cada uma das áreas pesquisadas.
Foram 46 adolescentes pesquisadores, de 14 a 17 anos, chamados de “agentes comunitários de pesquisa e desenvolvimento”, que realizaram 335 entrevistas em Santa Cruz; 261 no Complexo do Alemão; e 291 em Copacabana e Leme.
Conheça alguns resultados da pesquisa
Conheça as recomendações
Publicado em 18-12-08
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